Tudo começa em uma bela manhã de sol no ocidente. Em alguns países as nuvens cobriam os céus, mas deixavam transpassar em algumas brechas a intensa luz dos raios de sol, enquanto em outros países chovia uma leve e refrescante garoa que parecia querer perdurar pelo restante do dia a seguir. As pessoas em todos os locais agiam como de costume, seguindo seu roteiro diário no cotidiano de suas vidas. Algumas se levantavam, ainda meio que sonolentas e olhavam pela janela, confirmando o surgimento de um novo dia, uma nova oportunidade para viver. Algumas retornavam para casa após o cansativo expediente na longa jornada da noite fria, esperando apenas encontrar em seus quartos o descanso merecido após o árduo trabalho.
De todas as formas todos seguiam seus rumos, cheios de esperança, de sonhos e pensamentos, focados nas suas realizações de maneira que contribuíssem com seu crescimento pessoal e coletivo da sociedade onde estavam inseridas. Lógico, que para algumas pessoas a realidade é sempre mais cruel, mendigos, abandonados, crianças órfãs, criminosos sem esperança, idosos desiludidos, psicopatas sem solução, suicidas sem razão para viver e ainda assim estavam todos exercendo sua humanidade perante a natureza que os cerca e sequer se importa se estão vivos ou não.
A grande ilusão de todas essas pessoas que procuravam viver era pensar que tinham de fato algum controle sobre suas próprias vidas, e neste dia, neste último dia, aprenderiam que universo é maior do que o ego de cada um os permitiu enxergar.
Quem imaginaria que uma explosão ocorrida no momento em que tudo surgiu seria a responsável pelo momento em que tudo deixou de existir. Os chamados cientistas, homens do saber, pensavam que a partir de uma simples massa densa que explodiu se deu a existência de tudo, mas não conseguiam enxergar além, não enxergavam que a explosão da massa densa que conseguiam observar com muita dificuldade através de seus poderosos telescópios nada mais era que a visão do seu próprio fim.
Em algum lugar no centro de toda a existência do nosso belo planeta azul, um elemento, apenas um minúsculo e quase que insignificante elemento, era o responsável pelo equilíbrio de tudo que há no sistema de vida e evolução de todo o cosmos. De todos os gigantes planetas que habitam todas as infinidades de estrelas distantes apenas ao redor do sol se encontra o centro da vida pensante. Pensantes sim, inteligentes não. Até mesmo os insetos com toda sua simplicidade sabem o valor do equilíbrio em suas colônias e estes sim são inteligentes, inteligência coletiva, que mantém a ordem.
A suposta inteligência humana os fez ter ganância, uma vontade incontrolável de evoluir independente de outros, individualmente. Essa vontade quebrou o elemento minúsculo do equilíbrio chamado “coexistência”, onde a própria natureza por mais entrópica que seja procura estabelecer uma relação de existência mútua, mas dessa vez os seres autodenominados inteligentes ultrapassaram os limites da coexistência ativando na natureza o botão de reinicio, onde todas as coisas de um sistema corrompido serão descartadas e novas serão acrescentadas.
Aquela manhã calma e tranquila, com sol, nuvens e chuva estava prestes a se transformar. Poucas horas após o amanhecer, os lindos países ensolarados começaram a escurecer lentamente com nuvens escuras vindas de todas as direções, as pessoas esperavam chuva e antes de sair de suas casas se prepararam com guarda-chuvas e capas. Aqueles que não os tinham, já procuravam um local coberto para se manterem abrigadas. O céu anunciava, as pessoas entendiam, ou pensavam assim elas. Em pouco tempo toda a Terra já estava em trevas, e até mesmo onde havia chuva, as gotas cessaram e se manteve apenas a escuridão.
Postes já iluminavam as cidades, a noite parecia ter se adiantado, pois não havia brechas entre as nuvens para passar sequer um mínimo brilho de raio de sol. Todos sentiam aquela brisa fria que circulava pelas ruas, através dos prédios e construções, um vento leve e esguio que parecia querer conversar ao causar barulhos parecidos com assobios de uma criança que acaba de aprender juntar os lábios e assoprar para produzir o som. Noticiários já anunciavam o tempo mudado em todas as regiões, mas sequer compreendiam a razão da escuridão.
Autoridades, como sempre, apenas diziam que vai ficar tudo bem, que todos se mantivessem calmos e de preferência em suas casas, mas nem mesmo eles e seus mais inteligentes órgãos responsáveis imaginavam do que se tratava. O mundo estava fechando os seus olhos, entrando no mais profundo sono, onde tudo desaparece e só nos resta a escuridão. As pessoas sentiam em seus corações que a natureza estava lhes dizendo de uma vez por todas “Adeus”.
Até mesmo nas cidades rurais e nos campos, podia se sentir o frio da natureza a desfalecer, pois os animais selvagens ou domésticos simplesmente deitaram no chão, ou repousaram em galhos e ninhos. Eram inteligentes e sabiam que nada tinha que se fazer a não ser aceitar o que o grande destino havia decidido, então apenas relaxaram. Não se ouvia um canto sequer de um pássaro, nem mesmo o barulho incômodo de mosquitos e muriçocas, cães não mais latiam. Os seres se silenciavam para ouvir apenas o mundo chorar por não poder mais suportar a existência que havia lhe tirado o equilíbrio.
Aqueles em suas casas ou trabalho que estavam conectados a todo o momento, esperando em seus computadores as noticias do que estava acontecendo se assustaram ao ver que a sua conexão já não estava mais ativa. A primeira reação era reiniciar os seus modens e roteadores na esperança que a conexão também reiniciasse, mas ficaram frustrados ao ver que não resolvia. O mundo queria que se desconectassem de seus estúpidos e insignificantes aparelhos e se conectassem com a verdadeira natureza onde obteriam as suas respostas, mas os seres inteligentes são espertos demais para precisar da natureza e ao invés de sentirem a resposta, pegaram seus caros e modernos telefones, celulares e smartphones para ligarem para as autoridades em busca de respostas.
Mas a natureza é sábia, pois tudo que existe, criado ou não pelo homem certa vez fez parte da natureza, eram todas as coisas, antes de serem equipamentos, apenas matéria-prima. As ondas de rádio e qualquer outro tipo de transmissão são nada mais que parte da natureza, o homem pode pensar ter o controle sobre ela, mas não tem. Tudo era permitido pela natureza, para ser utilizado, e da mesma maneira que ela permitiu, ela também pode escolher não abrir mão. Televisores, rádios, celulares, telefones, todas estas coisas não passavam agora de peso de papel sem valor algum emitindo apenas sons de estática, sons que pareciam não ter significado algum, mas na verdade era a natureza dizendo “Me escutem com teus próprios ouvidos e me sintam com teus próprios corpos”.
E para fazer com que os homens a sinta a natureza então tentou tocá-los. A terra treme, as construções se balançam e dentro delas os homens que as construíram. Aquelas feitas sem boa estrutura caem ao chão e são abraçadas pela terra que as recebe de volta com o mesmo prazer que se tem ao abraçar alguém que se tem muita saudade. Pessoas são fracas, mais fracas que as construções que criaram, e quando sentem o abraço da terra, não suportam o quão apertado ele é.
Com medo de que o abraço da terra os “sufoque” até a morte, saem de suas construções e vão para lugares abertos e iluminados pelas grandes lâmpadas dos postes pensando estar seguros. Mas a natureza não deseja que os homens fiquem cegos com a luz falsa emitida pelo aquecimento de um filamento de cobre, então as águas que abastecem as usinas hidroelétricas se agitam em protesto aquela falsa luz, um falso poder, que homens enxergam, as águas invadem com todas as suas forças neste processo as instalações, rompendo as barragens, causando sobrecargas e desligando tudo aquilo que ainda fazia o homem se sentir no poder.
Escuridão, frio, desespero, morte, caos. Sentimentos que ecoavam através dos gritos humanos em agonia, indefesos e impotentes diante de tudo que mudaram, diante de tudo que criaram e diante do desequilíbrio que causaram. Mas de todo o sofrimento quem mais sofre é a natureza, que nos viu crescer, nos viu desenvolver, mas não nos viu de fato evoluir, mas sim regredir e por causa dessa regressão tudo estava por um fio de sentir o sopro de sua ultima respiração.
Se a escuridão já nos cegava mesmo estando de dia, ao anoitecer foi o frio que nos matava. Uma noite gélida onde não se via lua, não se via estrelas, não se via nada, apenas se ouvia murmúrios de dor e de lamento até mesmo daqueles descrentes de religião que agora buscavam consolo clamando para um poder maior que os salvasse, mas esse poder não viria, esse poder não os salvaria, esse poder era o que os estava dando naquele momento a liberdade da vida em que todos se prendiam esperando apenas a morte.
Mas a natureza é compreensível e sabe que necessitamos de calor, sabe que o calor aconchega e nos faz sentir seguros, então resolveu esquentar um pouco as coisas. Mais tremores e do centro da terra a natureza nos mandou o que tem mais quente e aconchegante que se pode ter, tão quente como o calor do sol foram os rios de lava que começaram a ser lançados de dentro da terra em vários picos e montes, onde nem mesmo se pensava ser possível a atividade vulcânica. Os que morriam de frio, agora morriam queimados.
O ser humano é confuso e nem mesmo a natureza consegue satisfazer os seus desejos, pois agora choravam e pediam por algo que os esfriasse. E a natureza já começa a entender o porque de não podermos coexistir. Do mais fundo dos oceanos, mesmo sem a lua a mostra, sobe toda a maré, mais alta que todo e qualquer tsunami que o mundo já viu, como uma gigantesca besta marítima, produzindo um som abafante que fez calar todos os choros por um instante. Silêncio.
E a água limpa o chão, como uma mãe limpa seu filho lhe dando um banho com tanto afinco, não lhe deixando rastro algum de sujeira. Afinal a mãe natureza apenas estava tratando com cuidado os últimos minutos da cria que não mais lhe reconhecia como uma mãe e por tratar a sua cria traidora com carinho, sabia ela que seria repreendida ao fim de tudo pelo grande pai que não mais aceitava os desaforos dos seres imperfeitos que criou.
Do grande pai Céu vem o sinal de que tudo chegou ao fim. O céu que era escuridão em nuvens negras agora era tão claro como o dia, mesmo estando noite, lança sobre a terra as suas brilhantes lágrimas que ardiam em chamas ao tocar na face da terra. Não eram lágrimas moles e liquidas, mas lágrimas duras de um pai que sofre com a decepção que seus filhos lhes trouxeram. E no fim nem mesmo a própria terra aguentou o peso que as lágrimas traziam e se desfez como um coração de vidro quebrado em mil pedaços que nem mesmo com a mais poderosa cola, voltaria a se juntar.
A reação que um coração quebrado traz para um corpo é mais profunda que uma ferida feita por uma arma e assim todo o corpo universal, como a mente de alguém que amou com todas as suas forças alguém que o traiu no fim de tudo, se abalou completamente trazendo enfim o fim de tudo.
"Espero que tenham gostado deste conto que resolvi criar, em especial para o suposto fim do mundo dia 21/12/12."

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